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Organização das finanças pessoais

Por Olavo de Fernandes
Publicado na página da Buosi & Fernandes em 11 de janeiro de 2004


A primeira medida a ser tomada na organização das finanças é uma reunião familiar onde o tema será discutido sem reservas, inclusive com a participação dos filhos, mesmo que pequenos, pois é importante que o assunto seja conhecido por todos os envolvidos.

A participação dos filhos vai lhes proporcionar o aprendizado necessário à sua educação financeira, que, em nossa opinião, deveria ser matéria obrigatória ainda no ciclo fundamental, ensinando-se noções de economia doméstica nas primeiras séries e aprofundando-se no segundo grau com o aprendizado de cálculo de juros.

Não deve ser escondida dos filhos a real situação financeira da família, seja ela boa ou ruim, pois o contato com o mundo das finanças vai lhes proporcionar o aprendizado necessário para o controle de sua vida no futuro, ensinando que nem tudo o que se tem no momento pode ser gasto, e que o dinheiro tem um valor que precisa ser respeitado.

Se o filho ainda é pequeno e não tiver condições de administrar a sua mesada, então lhe deve ser dada uma semanada, mas é importante que ele tenha a permissão de gastar o seu dinheiro como quiser, sabendo que seu próximo rendimento somente ocorrerá no dia estipulado, sem qualquer antecipação, pois assim adquirirá a habilidade para administrar o seu pequeno orçamento.

Mas, voltando à reunião da família: nesta reunião deve ser exposta a situação financeira da família e juntos, todos, devem estabelecer um pacto para os cortes de despesas necessários ao equilíbrio do orçamento. Assim serão estabelecidas as prioridades.

Sempre se descobre muitos gastos que podem ser reduzidos, desde que se saiba quanto se gasta com cada item de despesa. Por isso é muito útil se fazer uma planilha de ganhos e gastos. O simples ato de somar os gastos de cada item já provocará surpresas, pois na maioria das famílias não se conhece quanto se gasta, portanto, não se sabe direito onde vai parar o dinheiro que se ganha.

Há um ditado antigo, que meu pai gostava de citar, que diz: "não adianta o marido pôr dinheiro pela porta, se a mulher o jogar pela janela". Mesmo na simplicidade de sua falta de cultura acadêmica, ele sabia que muito do orçamento doméstico é administrado exatamente pela mulher que, quase sempre, faz a maioria das compras da casa, e, mais do que isso, pode, na escolha dos produtos a serem comprados, gastar mais ou menos.

Normalmente, na primeira reunião não se conseguirá preencher a planilha do orçamento (que deve ser adaptada aos gastos de cada família) com todas as despesas da família, pois a falta de registro dos gastos em meses anteriores quase sempre impede a identificação de todos os itens dos gastos que temos. Vamos perceber que o valor das despesas indicados na planilha preenchida na primeira vez será sempre menor do que os gastos reais, portanto, ao final de um mês de anotações é que vêm as surpresas.

Após as anotações do primeiro mês a família deve se reunir novamente para analisar as despesas efetivas e reavaliar os cortes possíveis.

Os cortes devem ser feitos de acordo com a situação da família, exigindo maiores cortes se as dívidas forem muitas.

Dicas para redução de despesas

Consumo de Energia Elétrica
Todos nos lembramos do apagão e acho que aprendemos a economizar energia, mas voltemos a assunto:
  • podemos tomar banho frio nos dias mais quentes;
  • podemos fechar o chuveiro enquanto nos ensaboamos;
  • podemos apagar luzes acesas sem necessidade;
  • podemos desligar aparelhos que ficam com aquelas luzinhas acesas (leads). Cada aparelho ligado consome 3,6 quilovates/hora por mês de energia. (ex. TV, telefone sem fio, DVD, videocassetes, etc.);
  • podemos passar roupas de uma só vez, evitando esquentar o ferro várias vezes ao dia (ou na semana);
  • podemos substituir lâmpadas incandescentes, que consomem mais, por lâmpadas com a chamada luz fria;
  • se fica alguma luz acesa durante a noite, podemos optar por uma lâmpada de menor consumo;
  • podemos desligar o freezer, já que não há mais necessidade de estocar produtos (e assim vamos consumi-los mais frescos).
Consumo de Água
Aqui também veremos que é possível se gastar menos e com o benefício ecológico de preservar o que é escasso:
  • tomar banhos mais rápidos;
  • fechar o chuveiro enquanto nos ensaboamos;
  • fechar a torneira enquanto escovamos os dentes;
  • em futuras construções, substituir a válvula de descarga por um vaso sanitário com a caixa de descarga acoplada;
  • consertar vazamentos em torneiras que ficam pingando;
  • fechar a torneira sempre que possível durante a lavagem das louças.
Telefone
O telefone não é para longas conversas. Assuntos muito longos devem ser tratados pessoalmente;
  • seja conciso no recado e no assunto e gaste menos;
  • faça suas ligações interurbanas nos horários em que ela custa menos (consulte a lista de tarifas das operadoras), normalmente à noite é mais barato;
  • o telefone celular é mais caro, evite-o. Sempre que possível use o telefone fixo;
Telefone Celular
Nem sempre trocamos o aparelho de telefone celular apenas quando há necessidade de troca. Às vezes o trocamos sem necessidade. Isto custa e se estamos devendo, este dinheiro poderia ser utilizado para reduzir as dívidas;
  • é muito comum vermos crianças com telefone celular. Antes de comprar, pondere a real necessidade.
  • há o custo do aparelho e das ligações, mesmo que a opção seja pelo pré-pago;
  • a posse de um telefone celular, normalmente aumenta o valor da conta do telefone fixo devido ao aumento do número de ligações do telefone fixo para o celular adquirido. Cada ligação da rede fixa para celular é cobrada à parte e é mais cara.
Roupas e sapatos
Se o dinheiro está curto, procure comprar somente o necessário. É muito comum comprarmos coisas que não precisamos;
  • evite compras por impulso, a emoção é inimiga da razão;
  • evite grifes caras, pesquise e encontrará bons produtos com preços mais acessíveis;
  • compare qualidade e preço, nem tudo o que é mais caro é de melhor qualidade;
  • aproveite promoções e liquidações. Quase sempre os preços são realmente mais baixos.
Alimentação e higiene
Embora muitos aleguem que preferem gastar com alimentação do que com remédios, veja que é possível economizar sem abrir mão da quantidade ou mesmo da qualidade;
  • os alimentos não devem ser preparados para sobrar. Prepare somente o necessário. Se sobrar, não jogue fora, guarde na geladeira para consumo posterior. Há muitas formas de reaproveitamento de alimentos sem prejuízo do sabor e nem da qualidade. Há livros de culinária que tratam do assunto;
  • prefira o consumo de frutas da estação, que são muito mais baratas do que as que estão fora de época;
  • não compre produtos mais caros somente porque são de marcas conhecidas, tente substituí-los pelos similares de outras marcas. Há produtos mais baratos e com a mesma qualidade;
Cheque Especial
O crédito do cheque especial tem os juros mais caros do mercado;
  • se você não puder sair do cheque especial, negocie o valor do seu débito por um empréstimo com juros menores. Consulte o seu gerente. Há opções para reduzir os juros;
Financiamento por Cartão de Crédito
Os cartões de crédito, junto com o cheque especial, têm os juros mais caros do mercado;
  • use o cartão de crédito para compras em parcelas somente com o parcelamento diretamente nas lojas. A fatura do cartão deve ser paga integralmente no seu vencimento, assim não haverá juros;
Empréstimos em Financeiras
Jamais utilize empréstimos de financeiras. Prefira os bancos, que têm juros menores;
  • confira sempre, e compare os juros em diferentes estabelecimentos de crédito. Pode haver diferenças enormes. A taxa de juros é igual ao preço de um produto, se ela for maior, o pagamento será também maior.
Compra de Remédios
Lembre-se que existem os medicamentos genéricos:
  • são muito mais baratos e de mesma qualidade;
  • há diferenças de preços entre genéricos de laboratórios diferentes. Pesquise.
  • discuta com o médico a possibilidade de receita de genéricos.
Troca de Carros
É muito bom andar de carro novo, mas um semi novo já teve sua maior desvalorização;
  • a desvalorização de um carro é sempre maior no seu primeiro ano de uso;
  • procure comprar um carro bom de mercado, assim perde-se menos na hora da venda;
  • o valor do IPVA vai diminuindo conforme o carro fica mais velho, portanto, um carro do ano tem o IPVA maior do que o de um carro de mesmo modelo, porém, um ano mais velho;
  • o valor do seguro também funciona com o mesmo raciocínio;
  • há modelos e marcas de carros cujo seguro é mais caro, mesmo tendo o mesmo preço. Consulte um corretor de seguros;
  • se o dinheiro está curto, prefira um carro com menor consumo de combustível abrindo mão de um possível maior conforto ou visual mais bonito.
Compras no Crediário
As compras no crediário sempre são acrescidas de juros. Não acredite que exista parcelamento sem acréscimo.
  • compare preços à vista e à prazo e confira a taxa de juros. O Código de Defesa do Consumidor obriga a informação da taxa de juros mensal e anual;
  • não calcule apenas se a prestação cabe no seu orçamento; ao comprar em 12 vezes, por exemplo, se você adiar a compra e tiver disciplina para guardar o dinheiro, é possível que com 8 ou 9 parcelas você pague a compra à vista. Então adie a compra, guarde o dinheiro e compre por menos;
No caso de famílias que estão com as finanças descontroladas, e, portanto, pagando juros, é preciso que todos se conscientizem de que a economia vai proporcionar uma redução nos juros pagos e depois vai permitir a compra de mais produtos.

Também é preciso considerar que se economizarmos dinheiro podemos aplicá-lo em um banco e recebermos juros que vai, no futuro, nos proporcionar maior renda disponível para consumo.

Olavo de Fernandes
Auditor fiscal da Receita Federal (aposentado), contador, auditor, perito judicial e sócio da Buosi & Fernandes.




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